domingo, 12 de maio de 2013

Animais falantes

Mote

Entre os animais falantes
O poeta é o que mais
Diz coisas interessantes
Aos colegas racionais

J. C. Ari dos Santos

Glosa

Se uns "zurram", outros "berram"
Embora animais falantes
Dizem tretas fascisantes
Mesmo sabendo que erram.
A estupidez que encerram
Em neurónios petulantes
São como "urros" constantes
De quem pouco sabe dizer
Mas muito pensam saber
Entre os animais falantes.

"Ladram" aqui, "rugem" além
Sua raiva interior
Não sabem o que é amor
Nem o que o amor contém.
Por isso lhes fica bem
Saberem por que jamais
Serão daqueles homens tais
Com amor no coração.
Nobre é esta alusão:
O poeta é o que mais.

Vê a vida deformada
P'lo que "uiva" sem saber
E que apenas quer viver
P'ra servir uma cambada
Ganhando sem fazer nada
Ao lado desses tunantes
Ferozes participantes
Da nossa sociedade.
O poeta é a verdade
Diz coisas interessantes.

Há os que "arrulham", também
Como pobres pombas mansas
Roubando as esperanças
Que a nossa vida tem,
Por isso mesmo convém
Avisar todos e jamais
Esquecer que estes tais
Q ue "ladram" e "arrulham"
São os que mais trafulham
Os colegas racionais.

José Diogo Júnior



sexta-feira, 26 de abril de 2013

Para Alice

À tua idade, quem me dera voltar...
Ver o mar, assim, diante de meus olhos...
E não o vasto campo de abrolhos
Que, desde menino tive de passar!...

Quem me dera dizer: que bom passar
O Equador que brilha nos teus olhos...
E na paz de Deus queimar abrolhos
Que possam teus caminhos ensombrar!...

Quem me dera ouvir, do mar, a voz...
Voz de Mostrengo, de Adamastor,
Voz de gigante, cruel e atroz...

E na voz meiga de Deus ver o esplendor
Dos carinhos de teus pais e teus avós
Num quadro de ternura, cheio d'amor!...

José Diogo Júnior

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Quadras ao gosto popular

Ó manjerico cheiroso
Em pobre jardim criado
De todos o mais jeitoso
Mas mesmo assim rejeitado

Maria se eu te chamar
Maria, não venhas, não
Já que não podes amar
O meu pobre coração

Vi um galo depenado
Por causa duma galinha
Que o tinha atraiçoado
Com o galo da vizinha

Morena de olhar triste
De triste me faz chorar
Essa tristeza que existe
No triste do seu olhar

Quando o silêncio é um grito
Bem dentro do coração
Brada em nós um som aflito
Sobe a força da razão

José Diogo Júnior

terça-feira, 9 de abril de 2013

Pedido

Pai,dá-me as tuas rugas cheias de ciência
Dá-me o teu chapéu, sujo d'águas e ventos
Dá-me a elegância da tua paciência
E a misteriosa sina dos teus tormentos

Dá-me pai, a tua sabedoria de contar coisas
E a luz que te iluminava o pensamento
Quando dizias que coisas, eram loisas
E que aragem, não era vento!...

Que, enquanto eu tiver vida divulgarei
A sina-ciência que de ti herdei.

 José Diogo Júnior

 20-05-2012 No 110° aniversário do nascimento de meu pai

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Mensagem de Natal

Este rio onde navego
Tem águas esquisitas
P'ra uns mansas,não nego!...
P'ra outras bravas, malditas.

Meu bote de parcos meios
Tem rombos por todo o lado
Mas quem tem os bolsos cheios
Tem barco de bom calado.

Se não calo vou ao fundo
E se ficar caladinho
Como tantos neste mundo
Navego como um anjinho.

Anjinho não quero ser
Nem penso em naufragar
Levanto a voz p'ra dizer
Sem armas hei-de lutar.

Hei-de lutar e vencer
Hei-de vencer a lutar
Neste Natal vou dizer
Basta de tanto roubar.

Àquele que mais precisa
Rouba quem tinha o dever
De of'recer a camisa
A quem não tem que comer.

Vou lutar neste Natal
Contra esta crueldade
Da roubalheira legal
Da mentira ser verdade.

E contra os opressores
Que governam a nação
Hei-de semear as flores
Da nova Revolução!...

Feliz Natal e que no Ano Novo todos consigamos superar as nossas dificuldades.
A vida é uma luta, quem não lutar tem à sua espera um lugar no Céu, como Anjinho...

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Quem Sou

Sou um homem de 62 anos, nascido e criado na pequena Vila Nova de Erra, Coruche, onde fiz a escolaridade obrigatória da época, ou seja: A quarta classe.
Trabalhei dos 11 aos 60 anos, fiz a guerra colonial em Angola e vivo na Alemanha à mais de 37 anos.
Apesar de viver no estrangeiro à tantos anos, amo a minha terra acima de todas as outras.

Erra Meu Amor

Na minha juventude, antes de ter saído
Da minha hospitaleira Vila Nova
De Erra, achei esta saudade que renova
Meus laços de amor a este chão florido.

Semeei campos infindos como prova
De amor a esta terra, merecido
Prémio, por nela terem nascido
As flores, onde o poeta busca a trova.

Assim, "andarei por toda a parte"
Buscando novas formas amorosas
De encher as tuas ruas de saudade.

E quando encontrar a felicidade
Farei deste amor um mar de rosas,
Se p'ra tanto tiver "engeno e arte".

José Diogo Júnior

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

A Campina

A campina passa
Pela minha rua.
Vai cheia de graça
Alegrar a praça
Que parece sua.

Bons olhos te vejam
Na rua a passar.
Que teus passos sejam
Os que mais desejam
Vir aqui morar.

O teu andamento
Eu fico a olhar.
Cabeça de vento
É temperamento
Que sonho beijar.

Já no outro dia
À luz do luar.
Tua companhia
Traz a alegria
Para me alegrar.

Mas se te não vejo
Passar nesta rua.
Sinto o desejo
De deixar um beijo
À ausencia tua.

Lá vai a campina
Meu amor primeiro.
Alma tão traquina
Que já desafina
O meu corpo inteiro.

Ao ver-te passar
Meu rosto sorri.
Posso não falar
Mas fico a gostar
De olhar p'ra ti.


No chapéu ao lado
Penas de pavão.
Blusa de riscado
Que tem guardado
Tão bom coração.

Quem me dera tê-lo
Na palma da mão.
Poderia vê-lo
Para convencê-lo
Da minha paixão.

Aqui do postigo
Olhando p'ra ti.
Preso neste abrigo
A sonhar contigo
Foi que eu morri.

A campina passa
Vai de alma nua.
Já não tem a graça
D'alegrar a praça
D'alegrar a rua.

No seu peito a dor
Venceu a Beleza.
Morreu-lhe o amor
Perdeu esplendor
É uma tristeza.

Ao chorar contigo
Este pesadelo.
Por ser teu amigo
Fecho o meu postigo
Nada mais é belo.

Querida campina
Desta minha terra.
Alma bela, fina
De mulher ladina
Emblema da Erra.

José Diogo Júnior